
Poderíamos estar em uma praia ou em um parque, mas, novamente estamos de livre e espontânea vontade em uma oficina atarefada. Um domingo quente ao lado de uma forja, mais quente ainda, e estranhamente, não vi ninguém reclamar. Muito ao contrário, olhares atentos, precisos, examinando milimétricamente detalhes do trabalho, e depois, um leve sorriso de satisfação do dever cumprido.
Um fim de semana subversivo, apócrifo, modernamente herético. Afinal, não estamos nos dedicando a nenhuma das atividades aprovadas pelas propagandas da tv. Não estamos comprando, consumindo, ou simplesmente descansando de pernas para o ar em uma praia de cartão postal. Estamos trabalhando, aprendendo e crescendo, em uma prece ruidosa a Hephesto.

Com aço não tem papo furado, não tem enrolação, só obedece as leis básicas da física, é diretamente sincero em sua simplicidade. Bata errado e ele vai ao lugar errado, todo o trabalho vai embora com uma única martelada incorreta. Ele pode parecer ingrato, pois uma martelada errada vai arruinar vinte certas e precisar de mais vinte para corrigir, mas ele é coerente, sincero e confiável, desde que conheça sua natureza. O nosso cotidiano é tão complicado que a complexa sinceridade do aço é relaxante.

Poderia estar sendo irônico, mas não estou, tem algo de lúdico, de bucólico no trabalho do aço, esquentar a peça na forja, martelar da maneira correta, e o papo diverso com os colegas. Assuntos técnicos de metalurgia, argumentos indizíveis sobre a política nacional, dicas de jardinagem e cozinha, design de facas, física quântica e outras amenidades. Foi um domingo muito agradável.
Está sendo deliciosamente divertido ser um novato, muito a aprender e resultados vindo de maneira rápida. Para quem só havia freqüentado uma forja por três dias, a uns dezoito anos atrás na chácara de um colega, voltar a bater no aço com um pouco mais de conhecimento e propriedade é um entretenimento incrível. No início o aço não me obedecia, aos poucos fui conseguindo moldar algo, e agora, conseguir resolver em três marteladas o que eu demorava sessenta é muito gostoso. Não tenho ilusões de chegar a ser um mestre, mas este caminho rápido dos iniciantes proporciona muita satisfação, como tudo na vida, quanto mais aprendemos mais demoramos a melhorar, pois chega um ponto onde o caminho já não é simples e o mapa não foi traçado.

Existe um prazer de iniciante que é o “estar fazendo”, aprender, tirar a simples alegria de fazer. E fazendo, evoluir na arte, melhorar suas habilidades, não estou nem falando de forja, mas também de música, cozinha e todas as atividades pelo qual podemos nos apaixonar. Por sorte na forja sou neófito, seria bom que durasse para sempre, mas, se assim o fosse não estaríamos aprendendo. Em outras áreas que tenho mais conhecimento a evolução não é tão rápida, assim, os resultados da forja são muito animadores.
O meu sorriso bobo deste fim de domingo, vem do prazer de fazer e aprender. O Rands e o Greg já são mais experientes, e acho que teriam diferentes explicações, mas fato é, no final deste domingo, estavam todos com um sorriso daqueles que só sai com cirurgia plástica.

Foi um bom domingo!
Abraço,
Alê












